Nossa Gente


Na década de 40, Brotas era uma cidade essencialmente católica. O padre Arnaldo era o pároco. Dedicado à igreja e as atividades religiosas, ele comemorava a Semana Santa de maneira grandiosa, com a encenação de alguns momentos da Paixão de Cristo. A cidade era o cenário e o povo, personagens daquela história sagrada.

Todas as celebrações eram abrilhantadas pela Banda de Música e o coral, ambos sob a direção do maestro Manoel Campos. A festa religiosa atraía grande número de pessoas do município e cidades vizinhas que ocupavam totalmente a igreja em todas as cerimônias.

* Domingo de Ramos – Missa Solene – O coral cantava a missa gregoriana. Na procissão, os fiéis levavam ramos de palmeira para lembrar a entrada de Cristo em Jerusalém. O Domingo de Ramos marcava a abertura da semana santa.

* Segunda e Terça-feira – confissões e preparação para a Páscoa.

* Quarta-feira – A procissão do Encontro. – Nesta caminhada o povo conduzia a imagem do Senhor dos Passos ao encontro da imagem de Nossa Senhora das Dores, levada por outro grupo de pessoas. Participavam os personagens Maria, Maria Madalena, Maria Salomé e os homens que acompanhavam Jesus. O encontro de Maria com o Filho Jesus carregando a cruz era um momento de fé e emoção. Neuza Campos (veja foto ao lado) entoava o canto “O vos omni”, revivendo a cena em que Verônica enxuga a face de Cristo e a sua imagem fica retratada na toalha.

* Quinta-feira – A Missa da Eucaristia. – A cerimônia dos lava-pés representando o ato humilde de Cristo ao lavar os pés de seus apóstolos. O padre e 12 crianças com vestes apropriadas reproduzem a cena.

* Sexta-feira – o ritual da cruz. – Em frente ao altar-mor, o cenário da colina de Jerusalém arranjado com folhagens, a cruz, a imagem de Cristo, os personagens da história e a encenação do momento em que Jesus foi crucificado. O coral entoava cantos da Paixão e o padre fazia um sermão emocionante. Durante a noite a vigília pascal.

* Sábado – As celebrações na igreja prenunciavam a aleluia. O fim da Paixão e a esperada ressurreição de Cristo.

* Domingo de Páscoa – Ao amanhecer, a procissão conduzindo a imagem de Jesus ressuscitado anunciava a nova vida de Jesus. A banda e o coral celebravam a Ressurreição com músicas festivas. Após a procissão, o padre Arnaldo celebrava a missa campal, a missa da Páscoa. O padre Arnaldo adquiriu as imagens de Senhor dos Passos, Jesus Ressuscitado e Imaculada Conceição. As imagens chegaram trazidas pelos homens em andores improvisados e numa grande caminhada percorreu a rua central animada pela banda e pelos fogos até a igreja. O padre Arnaldo marcou a história da vida religiosa de Brotas.

Texto: Anaide Campos

Manoel Barbosa Campos

Viveu de 1904 a 1947. Inteligente, culto e calmo. Sua habilidade artística se expressava através da pintura, desenho, poesia, artesanato, mas sua maior paixão era a música, tocava violão, violino e sax.

Fazia suas composições musicais, incluindo aí a música do Hino da cidade. Seu gosto pela música ia do canto sertanejo e popular à música sacra. Maestro da Banda de Música e do Coral da Igreja, participava de todos os eventos religiosos e sociais da cidade.

Com a esposa Ana Campos (Rôxa) formava um dueto suave para cantar em aniversários e outros eventos especiais. Manoel Campos é Brotense memorável.

(Homenagem da filha Anaide Campos)

Era pai de “Seu Nino”. Intelectual, fitoterapeuta (trabalha com medicina natural), ecologista e fazendeiro – é Brotense Ilustre.

Na Fazenda Periperi, onde morava, criava gado, ovelhas, aves, abelhas, na lagoa da sua propriedade criava peixes e jacarés. Preservava a natureza controlando a época da pesca, conservando as árvores no capinzal, evitando as queimadas e orientando as pessoas na defesa e valorização do meio ambiente.

Autodidata, falava inglês e francês e comprava diretamente da França livros, ingredientes para fabricação de medicamentos, imagens, presépios, máquinas, como o Engenho de cana da sua fazenda. Muito católico, importou de Paris o altar do Coração de Jesus, as três imagens, os dois anjos e os dois candelabros.

Possuía uma grande biblioteca onde adquiriu conhecimentos de agronomia, farmácia e medicina natural e um laboratório onde preparava remédios naturais a base de ervas. A pílula de Zé Campos, formulada e preparada por ele e distribuída gratuitamente, foi por muito tempo o alívio para as dores, mal estar e enxaqueca das pessoas da região.