Personagens Históricos


Horácio de Matos - Coluna Prestes
Os coronéis representavam uma oligarquia que dominou por várias décadas o interior do país. Eles eram a Lei e a autoridade, jamais podiam ser desafiados sob pena de receber severas punições. As precárias condições de vida do sertanejo faziam com que estes devotassem respeito e admiração a um coronel, seguindo à risca o que ele ditava.
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O ponto de partida para as desavenças entre Militão e a família Matos foi quando, em 1896, um jagunço do Coronel Clementino Pereira de Matos, chamado “Antônio da Jumenta”, depois de uma horrível bebedeira, insultou Militão e acabou levando uma surra de facão. Depois disso, Militão armou várias emboscadas para os jagunços de Clementino.Depois de exercer o poder total em Barra do Mendes, Militão desejava conquistar Brotas. Com a morte do Coronel José João, o cargo de Intendente (equivalia a prefeito) havia ficado vago, então ele juntou um exército e marchou para lá (1913). Foi interceptado por Horácio que o desencorajou de invadir a cidade, argumentando que um ataque de surpresa geraria antipatia e aversão das famílias brotenses ao chefe de Barra do Mendes.

Após a morte de Clementino (1911) e já como chefe da família Matos, Horácio recebeu um duro golpe ao saber que seu irmão, Vítor de Matos, foi brutalmente assassinado no povoado de Olhos D’água do Seco. Os assassinos se esconderam em Campestre (distrito a 12 km de Seabra) e receberam a proteção do chefe local, o Coronel Manoel Fabrício de Oliveira. Horácio de Matos queria a punição rigorosa dos assassinos de seu irmão, e como não conseguiu, juntou seus irmãos, parentes e jagunços e invadiram Campestre. Entretanto, Manoel Fabrício já tinha recebido notícias da movimentação de Horácio e se preparou para receber o grupo à bala e expulsá-los de lá. Houve uma interferência do governo propondo uma trégua, que durou pouco. Horácio juntou seus homens novamente e voltou a invadir Campestre, desta vez com sucesso. Depois deste feito, sua fama se espalha por toda a Chapada. Humilhado e derrotado, o coronel Manoel Fabrício foi para Itaberaba, onde morreu.

Enquanto isso, Militão Rodrigues Coelho dominava Brotas e Barra do Mendes (em Outubro de 1914, na segunda tentativa que fez, Militão conseguiu tomar Brotas de assalto e se estabeleceu lá como chefe) “fazendo e acontecendo”, não querendo abrir mão do poder sob hipótese alguma. Isso deixava irados seus inimigos, principalmente os Matos, que não haviam esquecido as emboscadas preparadas por ele a Clementino e seus jagunços. A situação era tensa, e o confronto, inevitável. Os dois lados se prepararam, até que Horácio invadiu Brotas e depôs Militão pela força das armas, assumindo o poder, indo Militão refugiar-se em Barra do Mendes, de onde organizou um movimento de resistência.

De lá, partiu para a capital, sendo recebido pelo governador Antonio Muniz de Aragão, que desmembrou os distritos de Barra do Mendes e Jordão (atual Ipupiara) do território de Brotas, formando assim um novo Município com sede em Barra do Mendes (Lei no. 1203, de 24 de Julho de 1917). Por um certo tempo reinou a paz e a tranquilidade nesses distritos, que antes eram um só, mas agora, dividiam os impostos e disputavam na região para ver quem tinha maior prestígio político.

Horácio jamais havia aceitado a vitória de Militão. Auxiliado pelo Coronel João Arcanjo e seus jagunços, organizou uma investida sobre a próspera Vila de Barra do Mendes. O ataque aconteceu em 7 de Janeiro de 1919, e para surpresa dos sitiantes, encontraram a Vila fortificada e pronta para resistir. O bando chefiado por Horácio usou de terror e violência, saqueando e incendiando as casas, matando os animais no pasto para servirem de alimento aos jagunços, enquanto as famílias ficavam trancadas em casa com fome e com sede. Quem ousasse sair de casa para tentar fugir ou ir na fonte buscar água, era abatido a tiros em plena luz do dia. A rendição só se deu pelo esgotamento dos víveres, pois as famílias, por intermédio de José Joaquim Sodré, vulgo Zeca Sodré, imploraram ao coronel Militão Coelho que aceitasse as condições impostas por Horácio para a rendição.

Entre as condições, uma exigia que Militão partisse para outra cidade, enquanto Horácio retomaria o comando da Vila. Militão, apoiado pelo coronel Franklin Lins de Albuquerque, se retirou para Pilão Arcado, encerrando assim uma fase de disputas, truculência e desrespeito à Lei e a Ordem. A Batalha de Barra do Mendes, que durou cinco meses e um dia, deixou mais de 400 mortos, entre eles Luís Rodrigues Coelho (filho de Militão), Isidoro e Manuel, irmãos de Horácio, que foram sepultados na igreja matriz de Barra do Mendes.

De Pilão Arcado, Militão foi a Salvador pedir providências ao governador, que lhe deu total apoio enviando um tropa de 150 soldados. Estes, comandados pelo Cel. Sarmento, se juntaram a mais 80 jagunços em Pilão Arcado. Daí partiram a Caraíbas (atual cidade de Irecê), para marcharem sobre Barra do Mendes, auxiliados também por uma tropa de 90 praças e pelos jagunços de João Pedro de Souza, chefe de Descoberto (próximo de Campestre). O combinado foi que todos entrariam juntos em Barra do Mendes. Mas o Delegado Regional Landulpho Medrado, encarregado de restituir o cargo a Militão, seguiu direto para a Vila, que estava dominada pelos seguidores de Horácio. Não encontrando o apoio e nem a tropa que estava combinado, o delegado se rendeu aos encantos de Horácio, e nada fez para devolver o cargo a seu verdadeiro dono, Militão Rodrigues Coelho.

Posteriormente, Horácio foi nomeado Delegado Regional da Zona Centro-Oeste (englobava os municípios de Lençóis, Palmeiras, Seabra, Barra do Mendes, Brotas de Macaúbas, Paramirim, Bom Sucesso, Wagner, Macaúbas e Piatã), foi Senador Estadual e quando da penetração da Coluna Prestes na Bahia recebeu ordens do presidente Artur Bernardes para formar um batalhão e combater os revoltosos.

Coronel Militão Rodrigues Coelho
Coronel Horácio de Matos

Fontes:

* Chapada Diamantina: História, riquezas e encantos (2a edição) – Renato Luís Bandeira / Onavlis Editora
* O sertão que eu conhecí (2a ed. 1985) – Claudionor Oliveira Queiróz
* O chefe Horácio de Matos – Américo Chagas
* Jagunços e Heróis (4 ed. 1991) – Walfrido Moraes
* O Coronel Militão Coelho (1a ed. 1980) – Edízio Mendonça

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Carlos Lamarca
Carlos Lamarca nasceu no Rio de Janeiro em 27 de Outubro de 1937. Em 1954, aos 17 anos, é admitido na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Em 1959, casa-se às escondidas com Maria Pavan, que estava grávida. Em 5 de Maio de 1960 nasce César Lamarca, 2 anos depois, a segunda filha, Cláudia. Teria seguido a carreira militar, como tantos colegas seus o fizeram, não fosse o fato de ele não aceitar a maneira como os militares usavam o exército para reprimir o povo, quando este gritava por seus direitos. Após alguns atos de insubordinação “leve”, ele radicalizou e em 24/01/1969 fugiu do quartel de Quitaúna levando numa kombi, 63 fuzís FAL, 3 metralhadoras e munição. Este fato marcou seu rompimento com o exército e sua entrada para a clandestinidade. Conheceu os principais militantes revolucionários, e leu clássicos comunistas, como Marx, Tolstoi e Trotski.
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José Campos Barreto (Zequinha) era o mais velho dos 7 filhos do casal José Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto (Dona Nair), responsável pela construção da igreja do Burití Cristalino (município de Brotas). Zequinha estudou no Seminário de Garanhuns, Pernambuco, e todos os anos, no mês de dezembro, vinha visitar a família. Numa dessas visitas (1963) não voltou mais para o seminário: ficou um ano trabalhando na roça e depois foi para São Paulo.

Em 1965 serviu o exército, no Quartel de Quitaúna. Fez amizade com vários líderes operários, participou de greves e manifestações. Numa greve, dia 17 de julho de 1968, com as tropas da Polícia Militar ameaçando invadir a Cobrasma (empresa onde Zequinha trabalhava), ele correu ao depósito de gasolina e ameaçou explodir a fábrica. Na confusão, muitos operários e grevistas conseguiram fugir. Zequinha ficou preso 98 dias.

Foi solto, e retornou ao Buriti levando os jornais. Olderico fica sabendo do acontecido, viajam os dois para São Paulo, onde Zequinha milita na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Daí mudam para Salvador, onde Olderico trabalha como motorista, e retornam ao Buriti. Com a morte de Dona Nair, eles se separam, indo Olderico para São Paulo e Zequinha para o Rio, onde milita na VAR- Palmares (dissidência da VPR). Decide mudar do Rio para Salvador e convence Olderico a acompanhá-lo. Lá aproxima-se do MR-8.

Com o endurecimento da repressão era necessário a transferência e deslocamento de alguns “quadros” para um local mais seguro. Como Zequinha já era de confiança dentro do MR-8, sugeriu-se a transferência de Lamarca do Rio para o sertão, o Buriti Cristalino era o local perfeito.

29 de junho de 1971 – Lamarca chega ao Buriti, juntamente com Santa Bárbara (um militante de Feira de Santana). Ficou escondido lá por dois meses, até que em 26 de agosto os militares da repressão, chefiados pelo então major Nilton Cerqueira e auxiliados pelas autoridades de Brotas, invadem o Buriti promovendo o horror e a violência contra a família de Zequinha. Otoniel é morto, Santa Bárbara suicida-se, seu José é barbaramente torturado, Olderico tem o dedo estraçalhado e o rosto atigido por uma bala, enquanto Zequinha e Lamarca fogem embrenhando-se na caatinga, conseguindo despistar seus perseguidores. Os militares então, suspendem as buscas, e retornam a seus postos.

Recebendo informações de moradores das redondezas, os militares voltam a região e retomam as buscas. Os dois são descobertos em Pintada (localidade de Brotas) e assassinados pela repressão, a 17 de setembro. Seus corpos foram levados à Brotas e expostos como troféu, fato que aterrorizou a população da cidade.

Fonte:
Lamarca, o capitão da guerrilha
Global Editora
Oldack Miranda e Emiliano José